A esofagite eosinofílica é uma doença crônica do esôfago, mediada pelo sistema imunológico, em que células de defesa chamadas eosinófilos se acumulam na parede do órgão. Um detalhe de anatomia explica quase tudo: o esôfago é o único trecho do tubo digestivo que, em condições normais, não tem eosinófilo nenhum.
Por isso o diagnóstico tem número. Segundo o Guia Prático de Atualização do Departamento Científico de Gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, ele é fechado quando a biópsia mostra 15 ou mais eosinófilos por campo de grande aumento no esôfago, sem aumento nos demais segmentos.
O que é esofagite eosinofílica?
É uma inflamação crônica e imunologicamente mediada do esôfago, caracterizada clinicamente por sinais de disfunção do órgão e, na biópsia, por inflamação predominantemente eosinofílica. Ela foi descrita no fim dos anos 1970 e reconhecida como doença própria em 1993, o que a torna recente para a medicina.
Para entender por que a contagem vira critério, vale olhar o resto do tubo digestivo. No ceco e no cólon ascendente, o eosinófilo é morador normal, com média acima de 20 por campo. No esôfago, a média registrada pela SBP é de 0,03 por campo, com máximo de 1. Encontrar 15 ali não é variar da média, é outra ordem de grandeza.
A ligação com alergia é o que sustenta o tratamento. O fato de a maioria dos pacientes melhorar com dietas de exclusão reforça o papel da alergia alimentar no disparo do processo imunológico, ainda que o antígeno responsável mude de pessoa para pessoa.
Sintomas da esofagite eosinofílica por faixa etária
Os sintomas mudam conforme a idade da criança, e essa é a principal razão de o diagnóstico demorar. O que aparece aos 2 anos não se parece com o que aparece aos 12.
| Faixa etária | O que costuma aparecer |
|---|---|
| Lactentes e pré-escolares | Dificuldades para se alimentar, recusa alimentar, vômitos e sintomas que parecem refluxo |
| Escolares e adolescentes | Dificuldade para engolir, sensação de alimento parado no peito e impactação alimentar |
Uma série brasileira publicada no Jornal de Pediatria acompanhou 43 crianças com a forma clássica da doença, com idade média de 8,4 anos e 86% de meninos. Nos menores de 7 anos, náusea, vômito e dor abdominal apareceram em 100% dos casos. Nos maiores de 7 anos e adolescentes, predominaram falta de apetite, queimação atrás do peito e impactação de alimento.
A SBP é honesta sobre o porquê dessa mudança: não está claro se os sintomas variam porque a criança maior consegue descrever melhor o que sente, ou porque a doença progride. O que se sabe é que o tempo sem tratamento leva o tecido do esôfago a remodelamento e fibrose.
O sinal sutil que quase ninguém associa
Antes da dificuldade para engolir aparecer com todas as letras, a criança costuma criar estratégias para dar conta da refeição. Beber líquido o tempo todo enquanto come, mastigar muito além do necessário, cortar tudo em pedaços pequenos, demorar demais no prato e evitar texturas como carne e pão.
Na mesa, isso raramente é lido como sintoma. Vira a criança que é lenta, enjoada ou que não gosta de comer.
Existe uma escala criada justamente para capturar esses sinais discretos, a PEESS v2.0, com 20 perguntas simples, em uma versão para os pais e outra para pacientes de 8 a 18 anos. Ela foi traduzida e adaptada para a cultura brasileira e publicada no Jornal de Pediatria em 2018.
O valor dela não é dar diagnóstico, é transformar uma queixa vaga em observação organizada antes da consulta. Reparar em como a criança come, e não só em quanto ela come, costuma ser o que muda a conversa.
Quem costuma ter esofagite eosinofílica
A doença pode acometer qualquer idade, mas em pediatria atinge principalmente crianças em idade escolar, com pico ao redor dos 10 anos e predominância no sexo masculino.
Os números são baixos e crescentes. A prevalência agrupada é de 22,7 casos por 100 mil pessoas, subindo para 29,5 por 100 mil entre crianças. A incidência agrupada é de 3,7 por 100 mil por ano. A SBP pondera que há aumento da percepção diagnóstica, mas também uma escalada real de casos novos.
É comum a criança com esofagite eosinofílica ter outras doenças alérgicas associadas, como asma e dermatite atópica. Quando a história familiar e pessoal de alergia já existe, a suspeita precisa entrar mais cedo na conversa.
Refluxo ou esofagite eosinofílica?
Este é o ponto que mais atrasa diagnóstico. Em lactentes e pré-escolares, os sintomas das duas doenças são parecidos a ponto de se confundirem, e o refluxo é muito mais comum, então costuma ser a primeira hipótese.
O dado prático que muda a conduta: pacientes pediátricos com controle inadequado do refluxo depois do tratamento podem ser portadores de esofagite eosinofílica em ao menos 5 a 10% dos casos.
A pHmetria esofágica, que já foi recomendada para separar as duas, não cumpre mais esse papel. As duas condições podem existir no mesmo paciente, e quem tem esofagite eosinofílica pode apresentar exposição ácida aumentada também.
Na prática, refluxo que não melhora como deveria é sinal de revisar o diagnóstico, e não de insistir no mesmo caminho.
Como se faz o diagnóstico
O diagnóstico é clínico e patológico ao mesmo tempo. Precisa de manifestações de disfunção do esôfago e, junto, de alterações vistas na endoscopia com biópsia.
A confirmação vem da endoscopia digestiva alta com biópsias, que precisa mostrar 15 ou mais eosinófilos por campo de grande aumento no esôfago e ausência de aumento de eosinófilos nos outros segmentos do tubo digestivo.
Vale saber disso antes de procurar atalho: apesar de vários marcadores imunológicos já terem sido identificados e estudados, a SBP afirma que ainda não existe exame menos invasivo que a endoscopia com biópsias para o diagnóstico e o acompanhamento da doença.
Os testes alérgicos têm papel, mas outro. O teste de hipersensibilidade imediata e o Atopy Patch Test entram para orientar quais alimentos restringir, e não para fechar ou descartar o diagnóstico.
O tratamento: os três D
A SBP resume as frentes de tratamento em três D: drogas, dieta e dilatações. A escolha depende da idade, do estado nutricional e da resposta de cada paciente.
Do lado da dieta, a opção mais eficaz é a dieta elementar, feita com fórmulas de aminoácidos: 97% dos pacientes respondem, com resolução dos sintomas e melhora na biópsia. Na vida real ela esbarra em três obstáculos, que a própria SBP lista: a palatabilidade, o preço e o volume necessário.
Por isso as dietas de eliminação são mais usadas. A exclusão dos seis alimentos mais associados (leite de vaca, ovo, soja, trigo, amendoim e frutos do mar) tem resposta em torno de 77%, e a de quatro alimentos em torno de 74%. Quanto menos se retira, menor a taxa de sucesso, e a decisão envolve essa troca entre eficácia e aderência.
Nada disso é para fazer por conta própria. Dieta de eliminação em criança, sem acompanhamento, é risco nutricional concreto. Por isso este texto não indica medicamento nem prescreve cardápio: descreve o que a literatura registra para que a família chegue à consulta sabendo o que está em jogo.
O que acontece se não tratar
A esofagite eosinofílica não fica parada. A evolução descrita em pacientes pediátricos é o remodelamento do tecido do esôfago, com fibrose, quando a doença segue sem intervenção.
É isso que explica por que dificuldade para engolir e impactação predominam em adultos: são o estágio avançado de um processo que muitas vezes começou na infância. A mucosa fica frágil, descrita na endoscopia como mucosa em papel crepom.
A complicação aguda que preocupa é a impactação alimentar, quando um pedaço de comida fica preso no esôfago e não desce. É situação de pronto atendimento, não de esperar passar.
Quando já existe estreitamento, há a dilatação endoscópica, considerada segura também nesses pacientes, com risco de perfuração menor que 1%. As estenoses são mais comuns em adultos do que em crianças, o que é exatamente o argumento para identificar cedo.
Quando procurar o alergista
A investigação costuma envolver o gastroenterologista pediátrico e o alergista trabalhando juntos. A avaliação em alergia e imunologia entra, em especial, nestas situações:
- Refluxo que não controla depois do tratamento adequado.
- Recusa alimentar persistente, vômitos repetidos ou dificuldade de ganhar peso sem causa esclarecida.
- Criança que bebe líquido o tempo todo para conseguir engolir, ou que evita texturas sólidas.
- Qualquer episódio de alimento entalado no esôfago.
- Diagnóstico já confirmado, para identificar os alérgenos e desenhar a dieta com segurança.
- História pessoal ou familiar forte de alergia, somada a sintomas digestivos que não fecham.
O padrão que vemos na prática é uma criança rotulada de enjoada para comer há anos, já tratada como refluxo mais de uma vez, que na consulta descreve uma cena muito específica: ela bebe água a cada garfada porque, sem isso, a comida não desce. Não é frescura, é sintoma, e é o detalhe que costuma abrir a investigação certa.
Perguntas Frequentes sobre Esofagite Eosinofílica
Qual o CID da esofagite eosinofílica?
Na CID-10 usada no Brasil, a esofagite eosinofílica não tem código próprio: ela é registrada em K20, Esofagite. Algumas versões nacionais da CID-10 criaram uma subdivisão específica (K20.0), e na Alemanha isso só aconteceu em 2023, o que dá a medida de como o reconhecimento formal da doença é recente. Em laudo ou pedido brasileiro, o esperado é o K20 acompanhado da descrição por extenso.
Esofagite eosinofílica pode virar câncer?
A literatura não sustenta essa ligação. Os estudos populacionais mais amplos não encontraram aumento de câncer de esôfago em quem tem a doença, e o único sinal positivo relevante, de uma coorte sueca, mostrou risco absoluto baixo, com os próprios autores pedindo cautela antes de generalizar. O que a literatura pediátrica de fato descreve como evolução sem tratamento é outra coisa: remodelamento do tecido, fibrose e estreitamento do esôfago. É esse o motivo de tratar, e não o medo de câncer.
Esofagite eosinofílica tem cura?
É uma doença crônica, então a pergunta mais útil é sobre controle. Com o tratamento certo, os sintomas se resolvem e a biópsia melhora, e muitos pacientes passam longos períodos sem queixa. O acompanhamento continua existindo porque a inflamação pode voltar quando o tratamento é suspenso, e porque a avaliação da resposta é feita por exame, não só pelo que a criança sente.
Bebê pode ter esofagite eosinofílica?
Pode, e nessa idade é mais difícil de reconhecer, porque os sintomas são inespecíficos: dificuldade para se alimentar, recusa, vômitos e sinais que parecem refluxo. É justamente por isso que o diagnóstico diferencial com refluxo importa tanto nessa faixa, e por que refluxo que não responde ao tratamento merece ser reavaliado.
Qual médico trata esofagite eosinofílica?
O acompanhamento costuma ser conjunto. O gastroenterologista pediátrico conduz a endoscopia e o seguimento do esôfago, e o alergista e imunologista investiga os alérgenos envolvidos e orienta a estratégia de dieta, porque o motor da doença é imunológico. Conheça a consulta de alergia e imunologia, que pode ser presencial ou em atendimento online.
Precisa repetir a endoscopia?
Sim, e esse é um ponto que costuma surpreender as famílias. Como não existe exame menos invasivo para acompanhar a doença, a resposta ao tratamento é medida por nova endoscopia com biópsias. Melhorar dos sintomas é ótimo sinal, mas não garante que a inflamação no tecido tenha cedido, e é a inflamação que leva à fibrose ao longo dos anos.
Conclusão
A esofagite eosinofílica é incomum, mas está longe de ser rara o bastante para ser ignorada quando o quadro não fecha. Ela se esconde atrás de dois rótulos muito usados: refluxo que não melhora e criança que não gosta de comer.
O que separa um caso do outro não é intuição, é método: observar como a criança come, reconhecer que os sintomas mudam com a idade e investigar com endoscopia e biópsia quando a história pede. A avaliação em alergia e imunologia entra para achar o que dispara a inflamação e desenhar a dieta sem improviso.





