Estrófulo é o nome médico daquilo que a família chama de alergia a picada de inseto. A reação não é à picada em si, e sim aos antígenos presentes na saliva do inseto, segundo o Departamento Científico de Dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.
É uma das queixas mais frequentes no consultório de pediatria e uma das que mais angustiam os pais, porque as lesões coçam muito, duram semanas e costumam aparecer em uma criança só enquanto o resto da casa não tem nada. Tudo isso tem explicação, e ela muda o jeito de tratar.
O que é estrófulo?
Estrófulo, também chamado de prurigo estrófulo ou urticária papular, é uma reação de hipersensibilidade aos antígenos da saliva dos insetos que picam. Não é infecção, não se pega de ninguém e não tem relação com falta de higiene.
Qualquer inseto que pique pode provocar a doença em crianças suscetíveis. Entre os mais comuns estão os mosquitos, as pulgas e os carrapatos, além de outros que se alimentam de sangue, como os percevejos.
Saber o nome técnico resolve um problema prático. Quem procura por alergia a picada de inseto costuma encontrar orientação genérica. Procurando por estrófulo, a família encontra o quadro descrito com nome, padrão de lesão e tempo de evolução.
Como são as lesões: o padrão que identifica a picada
As lesões são pápulas avermelhadas distribuídas em linha e aos pares, como uma fila indiana. Esse desenho é a assinatura do hábito do inseto, que a SBP descreve como café, almoço e jantar: ele pica, anda um pouco e pica de novo.
A lesão característica é a pápula com uma vesícula no centro, chamada seropápula de Tomazoli, com tamanho entre 3 e 10 milímetros. Em 1 a 3 dias ela fica recoberta por uma crosta escura. Algumas crianças fazem formas com bolha, menos frequentes, principalmente nos braços e nas pernas.
Onde a lesão aparece já diz muito sobre qual inseto picou.
| Tipo de inseto | Onde as lesões aparecem | Pista a mais |
|---|---|---|
| Voadores (mosquitos e pernilongos) | Áreas expostas, principalmente na face externa de braços e pernas | Mais frequentes nos meses quentes e em clima tropical |
| Andadores (pulgas) | Tronco, em grupos de 2 ou 3, perto do elástico da roupa ou da fralda | A região da nádega é poupada, porque o inseto não ultrapassa essa barreira |
| Percevejos | Tronco e, eventualmente, o rosto | Lesão na pálpebra, porque ele se alimenta à noite, com o olho fechado |
As lesões são menos observadas na face e raramente aparecem nas palmas das mãos, nas plantas dos pés e na axila. Na região genital, não aparecem. Depois que somem, deixam manchas mais claras ou mais escuras, que melhoram ao longo de alguns meses.
Por que só uma criança da casa tem?
Essa é a pergunta que mais chega ao consultório, e a resposta está na sensibilização. Para reagir, a criança precisa ter sido picada várias vezes antes. Por isso o estrófulo raramente começa antes dos 6 meses de vida.
O quadro em geral se inicia entre os 12 e os 24 meses, e pode ser mais precoce em crianças intensamente expostas a insetos. Com o tempo, o tipo de reação imunológica se modifica até que apareça a tolerância, por volta dos 10 anos de idade.
É por isso que o adulto da casa toma a mesma picada e não faz lesão nenhuma: ele já é tolerante. O bebê de colo também não faz, porque ainda não foi sensibilizado. Não é que o inseto escolha uma criança, é que só ela está na janela de idade em que o corpo reage desse jeito.
A SBP registra que a primeira e mais importante etapa do tratamento é exatamente essa: convencer os pais de que as lesões vêm de picada de inseto, mostrando o padrão de distribuição. Sem esse passo, as medidas de prevenção não são feitas e o quadro se repete.
Quanto tempo dura e por que parece que não passa
As lesões características duram de 4 a 6 semanas. Depois vem a fase das manchas, que leva alguns meses para clarear.
O que dá a sensação de quadro sem fim é outra coisa: basta um contato por semana para manter as lesões por vários dias. Enquanto a exposição continuar, a criança produz lesões novas por cima das antigas, e a impressão é de algo contínuo.
Vale observar o surgimento das lesões nos dias seguintes para tentar identificar onde a picada aconteceu e qual inseto está causando a reação. Daí a terceira letra do que a SBP chama de 3 P do tratamento: Prevenção da picada, controle do Prurido e Paciência.
Quando o inchaço é grande demais: a síndrome Skeeter
Algumas crianças fazem uma reação local muito intensa, que tem nome próprio: síndrome Skeeter. Horas depois da picada aparecem inchaço, calor, vermelhidão, dor ou coceira, e às vezes esses sinais vêm acompanhados de febre e vômitos.
A extensão da lesão lembra uma celulite, e é frequente que o quadro seja diagnosticado e tratado por engano como infecção bacteriana. O detalhe que separa as duas coisas é o tempo: as lesões começam poucas horas após a picada, período curto demais para uma infecção se desenvolver.
Correm maior risco de reações inflamatórias graves a picada de mosquito os lactentes e pré-escolares, as pessoas com imunodeficiência e quem acabou de chegar a uma região com insetos aos quais nunca foi exposto antes.
O diagnóstico é clínico, feito pela história e pelo exame físico, e pode ser complementado por IgE específica e teste cutâneo.
Como prevenir: o que funciona e o que tem pouca evidência
Evitar a picada e orientar as medidas ambientais é o tratamento mais eficaz, e a maior parte dele não passa pela farmácia.
- Roupas de manga comprida e calça comprida nos locais de maior exposição, funcionando como barreira física.
- Telas nas janelas e portas, e mosquiteiro na cama.
- Permetrina aplicada no mosquiteiro e nas roupas, que aumenta a eficácia da barreira. Telas impregnadas são recomendadas a partir dos 6 meses de idade.
- Janelas fechadas no nascer e no pôr do sol, horário em que alguns mosquitos procuram alimento. Já o Aedes tem maior atividade durante o dia e em áreas abertas.
- Ambientes climatizados com ar-condicionado, que afastam os mosquitos do recinto.
- Dedetização por empresa especializada, respeitando o tempo de afastamento da casa.
- Limpeza do terreno e retirada de lixo e entulho que possam acumular água parada.
- Tratamento do animal de estimação por um veterinário, para eliminar pulgas.
Os repelentes tópicos com DEET, icaridina ou IR3535 são eficazes e seguros, mas a idade mínima varia de produto para produto e a bula é a referência. Bebês com menos de 2 meses devem usar apenas barreira física, como roupas e carrinho com mosquiteiro de elástico. A frequência de aplicação também muda com a idade, então essa escolha é do pediatra, e não da prateleira.
Um ponto de honestidade: a vitamina B1 por via oral aparece com frequência como repelente natural e parece ajudar em alguns casos, mas a própria SBP registra que existem poucos estudos demonstrando sua eficácia. Vale saber disso antes de contar com ela como proteção principal.
O que fazer na coceira
Controlar a coceira não é questão de conforto, é prevenção. Criança que coça abre a pele, e pele aberta é porta para infecção bacteriana secundária.
Duas medidas simples fazem diferença e não dependem de receita: manter as unhas da criança cortadas e manter as lesões limpas, com higiene local.
Do lado medicamentoso existem opções indicadas pela SBP, entre elas anti-histamínicos orais de segunda geração e corticosteroide tópico. O que muda o resultado, porém, não é o nome do produto, e sim a potência adequada, por quantos dias e em qual idade. Os corticoides tópicos têm classes de potência muito diferentes entre si, e os mais fortes não são item de prateleira para criança.
Por isso este texto não indica nenhum produto. E se as lesões infeccionarem, com pus ou vermelhidão que se espalha, a conduta muda e a avaliação precisa ser presencial.
Quando não é estrófulo: a reação que preocupa
Estrófulo é uma reação local. Existe outra situação, bem menos comum e muito mais grave, que é a reação sistêmica ao veneno de abelha, vespa, marimbondo e formiga.
A diferença não está no tamanho da lesão no local da ferroada. Está no corpo inteiro responder: urticária espalhada longe do ponto da picada, inchaço de lábios ou pálpebras, falta de ar, chiado, vômito, tontura ou desmaio. Isso é anafilaxia, e é emergência médica.
As diretrizes da EAACI sobre alergia a veneno de himenópteros registram que reações alérgicas sistêmicas a picadas foram relatadas em até 7,5% dos adultos e em até 3,4% das crianças. É pouco, mas não é zero, e a distância entre um desfecho e outro é enorme.
Para quem já teve reação sistêmica existe um tratamento específico. As mesmas diretrizes descrevem a imunoterapia com veneno como o único tratamento capaz de prevenir novas reações sistêmicas a picadas, indicada tanto em crianças quanto em adultos alérgicos ao veneno.
Vale ainda separar o estrófulo da urticária comum da infância, que tem outro mecanismo e outra evolução, mesmo que o nome urticária papular confunda.
Quando levar ao alergista
O pediatra conduz a maior parte dos casos. A avaliação com alergista e imunologista costuma entrar nestas situações:
- As lesões infeccionam com frequência.
- O quadro não cede mesmo com as medidas de prevenção sendo feitas de verdade.
- A reação local é desproporcional, com inchaço grande, febre ou aparência de celulite.
- A criança está fora da faixa esperada, com quadro antes dos 6 meses ou persistindo bem depois dos 10 anos.
- Houve qualquer sinal de reação sistêmica depois de uma ferroada, mesmo que leve.
- Há dúvida entre estrófulo e outro diagnóstico de pele.
O padrão que vemos na prática é a família chegar com meses de fotos no celular e a mesma frase: parece que o mosquito pica só ele. Quando a gente mostra o desenho das lesões em linha e aos pares, a explicação para de pé e o tratamento começa a funcionar, porque a casa inteira passa a agir junto.
Perguntas Frequentes sobre Estrófulo e Alergia a Picada de Inseto
Qual o CID do estrófulo?
Na CID-10, o estrófulo é classificado entre os prurigos, no código L28.2, descrito como outro prurigo, categoria que inclui a urticária papular. Vale lembrar que o código registrado em um atestado ou pedido depende do que o médico identifica naquele caso, e que a tabela oficial é sempre a referência final.
Estrófulo tem cura?
O quadro tende a se resolver com a idade. Ao longo da evolução, o tipo de reação imunológica se modifica até que apareça a tolerância, por volta dos 10 anos de vida. Até lá, o que existe é controle: reduzir a exposição às picadas e tratar as lesões e a coceira. Por isso o foco do acompanhamento é atravessar bem esses anos, e não esperar uma cura que chega sozinha.
Alergia a picada de inseto pode dar febre?
Pode, nas reações locais intensas. Na síndrome Skeeter, os sinais de pele vêm às vezes acompanhados de febre e vômitos, começando poucas horas depois da picada. Febre que aparece sem esses sinais, ou dias depois, aponta para outra causa e merece avaliação.
Bebê pode ter estrófulo?
Raramente antes dos 6 meses, porque a sensibilização exige diversas picadas anteriores. O quadro costuma começar entre os 12 e os 24 meses de vida, e pode ser mais precoce em bebês muito expostos a insetos. Em menores de 2 meses, a orientação é usar apenas barreira física, como roupas e carrinho com mosquiteiro de elástico.
Qual médico trata alergia a picada de inseto?
O pediatra faz o diagnóstico e conduz a maioria dos casos, porque o quadro é clássico e reconhecível pelo padrão das lesões. O alergista e imunologista entra nos quadros que não cedem, nas reações locais muito intensas e sempre que houve suspeita de reação sistêmica a ferroada. Conheça a consulta de alergia e imunologia, que pode ser presencial ou em atendimento online.
Quem tem alergia a picada de abelha pode comer mel?
São coisas diferentes. A alergia nesse caso é ao veneno injetado pela ferroada, e não ao mel, que é um alimento produzido pela abelha. Ter reação à ferroada não significa, por si só, ter alergia alimentar ao mel. Se houver qualquer sintoma depois de comer mel, isso é outra investigação e precisa ser avaliada separadamente.
Conclusão
Estrófulo é comum, é benigno e tem desenho próprio: lesões em linha e aos pares, coceira intensa, 4 a 6 semanas de duração, uma criança da casa só e a tolerância chegando por volta dos 10 anos.
O que decide o resultado não é qual creme, é interromper a exposição e saber separar três situações: a reação local comum, a reação local intensa da síndrome Skeeter e a reação sistêmica ao veneno, que é a única urgente. A avaliação em alergia e imunologia existe para fazer essa separação e montar a prevenção junto com a família.





